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sexta-feira, 12 de setembro de 2025

101 - MEU REGRESSO - SAUDADES



Saí de Luanda com a mala apertada,

não só de roupas, mas da vida guardada,

Parti de Angola de malas feitas,

mas o coração carregava o peso da terra.

Não eram só roupas, papéis ou lembranças:

eram os ecos de risos, ralhetes,

e a poeira vermelha que insiste em ficar nos pés,

mesmo depois de atravessar o oceano.


Lembro o Curtume, com suas ruas gastas,

paredes rachadas, telhados cansados,

mas cheio de vozes, de sonhos pequenos,

da meninice que corria livre, 

simples e breve, sem pedir licença.

E da Sonefe, degradada, mas viva,

onde a juventude se fez resistência.


Lembro a ilha de Luanda, azul infinita,

o cheiro da brisa, a vida bonita,

o mar que parecia não acabar,

a promessa de frescura nas tardes de calor,

e aos domingos, fiel tradição de família,

o gelado do rabugento, delícia da mão.


Jogávamos bola de saco,

enchida de plásticos, forrada de cordas,

a nossa taça do mundo improvisada.

No campo da Tcul, campeonatos que nos faziam reis,

na Filda, gritos de golos que ecoavam além da pobreza.

Não tínhamos chuteiras, mas tínhamos ginga,

não tínhamos troféus, mas tínhamos aplausos sinceros.

era pouco o que havia, mas tanto de paraíso.


E os namoros inocentes,

as cartas dobradas escondidas no bolso,

as cartas trocadas, promessas quentes,

o rubor no rosto quando a mão tocava outra.

Lembro-me da mamã Kalunga ralhar na porta,

braços na cintura, olhar de trovão,

a ralhar por chegar tarde da noite,

a prometer castigos que quase nunca cumpria.

No fundo, era só o seu jeito de amar

numa casa apertada, mas cheia de mundo.


Ah, doce pobreza de sacrifício duro,

livros pesados, mas coração seguro,

na partilha dos cadernos, no pão dividido,

nas alegrias do coleguismo, tanto vivido.


Estudávamos com sacrifício,

cadernos gastos, canetas que falhavam,

mas havia sempre alguém a emprestar uma folha,

a dividir o lanche,

a rir do mesmo professor.

Na pobreza, a solidariedade era pão diário.

E no coleguismo, descobrimos que crescer

é carregar o outro consigo também.


E agora em Coimbra, entre pedras antigas,

procuro no Mondego as minhas antigas cantigas,

mas é no coração que Angola repousa,

terra de sol, memória que não é ociosa.


O Mondego corre calmo,

mas nos meus ouvidos ainda soam

as ondas da Ilha de Luanda.

A saudade vem nas esquinas,

no frio que corta,

nas vozes que não reconheço na rua.


O meu regresso não é só viagem no chão,

é trazer Luanda cravada na mão,

nas lembranças que a distância não apaga,

na saudade que arde, mas nunca se estraga.


O meu regresso não precisa de avião:

ele acontece cada vez que fecho os olhos,

cada vez que a memória me devolve

um pedaço da minha Angola.

E um dia, sei, voltarei de verdade,

não como quem parte,

mas como quem reencontra

a terra onde o menino correu descalço,

onde a juventude aprendeu a sonhar,

onde a saudade nunca deixou de morar.


Sofrido das Chagas


100 - NAS ROÇAS DE SÃO TOMÉ

 

Levados no porão do navio,
não por escolha, mas por decreto frio,
angolanos cruzavam o mar,
não para conhecer, mas para penar.

Roças de cacau, cana e suor,
um império mascarado de senhor,
com promessas de pão e contrato,
mas na chegada: corrente e aço.

A terra cheirava a riqueza dourada,
mas o povo, apenas sombra dobrada,
mãos que cavavam, pés que sangravam,
olhos que, de longe, Luanda lembravam.

São Tomé não era ilha de prazer,
era prisão sem grades a esconder,
um campo de trabalho, uma mina de dor,
um eco amargo da farsa do colonizador.

E à noite, debaixo da lua calada,
cantavam baixinho a esperança guardada,
versos em kimbundu, rezas em umbundo,
para não perder-se no silêncio profundo.

Mesmo no lodo, crescia a raiz,
mesmo no açoite, sonhava-se o país,
que um dia, rompendo a algema imposta,
veria a liberdade brotar da roça.

 

  Sofrido das Chagas




quinta-feira, 4 de setembro de 2025

99 - GEMIDO DE NEGRO (1)

 


 Gemido de negro,

sussurro da noite rasgada,

eco que não dorme

na memória da cana-de-açúcar,

no chicote que rasgou costas,

no ferro que queimou pulsos,

no navio que cheirava a desespero.


Gemido de negro,

sopro de marés vermelhas,

lágrima salobra que se misturou ao Atlântico,

canto quebrado de mães sem filhos,

filhos vendidos como gado,

corpos medidos em moedas,

vidas trocadas por especiarias,

por pólvora, por sal.


Nos porões apertados,

o ar era cemitério.

Homens viraram sombra,

mulheres viraram silêncio,

crianças viraram mercadoria.

O tambor calou-se,

a dança congelou,

e o corpo que queria ser livre

aprendeu a gemer como oração.


Gemido de negro,

espalhado em plantações de algodão,

onde cada gota de suor

era lucro para um senhor distante.

Na terra que não era sua,

o negro semeava,

colhia,

e morria.


Mas mesmo no cativeiro,

nasceu a teimosia do canto,

o sussurro da resistência,

a lembrança de uma terra perdida,

a saudade de um sol africano.

Na batida escondida da palma,

no olhar erguido em segredo,

o gemido transformava-se em chama,

em lembrança, em promessa.


Séculos depois,

o navio virou bandeira,

a corrente virou fronteira,

o colonialista chegou com livros e armas,

com cruz e contrato.

Chamou de missão o saque,

de civilização o roubo,

de progresso a exploração.


Na África cortada em linhas artificiais,

o negro tornou-se estrangeiro na sua própria aldeia.

A terra dos ancestrais foi fatiada,

as minas cavadas,

o ouro arrancado,

o petróleo sugado,

enquanto a fome permanecia nas barrigas vazias.


O colonialista construiu cidades de pedra,

onde o negro só podia entrar pela porta de serviço.

Escolas de muros altos,

onde o saber era racionado

para que o negro apenas aprendesse

a servir melhor.

A língua materna virou pecado,

o nome ancestral foi apagado,

a história foi reescrita com tinta estrangeira.


E o gemido,

sempre o gemido,

ecoou nos campos,

nas ruas coloniais,

nas prisões de rebeldes,

nos chicotes da PIDE,

nas fogueiras de aldeias queimadas.


Gemido de negro,

depois da independência sonhada,

quando a bandeira subiu

e os hinos ecoaram,

a esperança parecia finalmente vencer.

Mas o ouro já estava longe,

os diamantes já tinham dono,

o café e o cacau já tinham preço marcado.

O colonizador saiu,

mas deixou contratos amarrados,

dívidas invisíveis,

governos frágeis,

armas espalhadas.


O negro livre,

livre apenas no nome,

continua a gemer na favela,

na periferia,

na seca do campo.

Via arranha-céus erguerem-se para poucos

enquanto milhões rastejavam em barracas,

esperando uma partilha que nunca vinha.


As riquezas,

ah, as riquezas!

Guardadas em cofres de elites,

transferidas para bancos estrangeiros,

desviadas em contas secretas.

Enquanto isso,

o povo continua a beber água turva,

a caminhar quilómetros descalço,

a estudar à luz de uma vela.


O gemido ecoava em hospitais sem remédio,

em escolas sem professor,

em estradas de pó,

em jovens sem emprego.

Ecoava também no mar Mediterrâneo,

onde corpos negros flutuavam

tentando fugir do próprio continente,

tentando encontrar um pedaço de dignidade.


Gemido de negro,

não é só lamento,

é também fúria contida.

É memória de reis e rainhas,

de impérios erguidos com sabedoria,

de filosofia que ensinava a harmonia da aldeia.

É lembrança de resistência,

de guerreiros que não se curvaram,

de quilombos que floresceram em segredo,

de vozes que escreveram liberdade.


É denúncia,

acusação contra um mundo

que distribui riqueza como herança de poucos

e miséria como destino de muitos.

É grito contra o racismo que ainda divide,

contra a marginalização que ainda sufoca,

contra a indiferença que ainda mata.


Mas também é semente.

Porque o gemido do negro,

se escutado com atenção,

carrega esperança.

É tambor que quer voltar a bater,

é canto que quer subir ao céu,

é palavra que insiste em existir.


Que este gemido não seja esquecido,

que não seja abafado pela pressa do mundo.

Que ecoe nas universidades,

nos parlamentos,

nas ruas.

Que lembre aos ricos

que a riqueza nasce do suor coletivo

e não da exploração de muitos por poucos.

Que lembre aos poderosos

que a justiça não pode ser privilégio,

tem de ser pão partilhado.


Gemido de negro,

gemido de humanidade.

Se o negro geme,

geme a própria história,

geme o próprio planeta,

geme a própria esperança de justiça.


E no dia em que o gemido

se transformar em canto,

em dança,

em liberdade plena,

talvez a humanidade, enfim,

deixe de ser surda.

98 - GEMIDO DE NEGRO (2)

 


Gemido de negro,

voz que atravessa a noite,

ferida que não cicatriza,

história que não se apaga.


Gemido de negro,

eco de tambores calados,

lágrima de mães roubadas,

choro de filhos vendidos.


No porão do navio, o gemido era grito,

mar salgado, ar maldito.

Corpos presos, correntes frias,

vidas medidas em mercadorias.


O mar guardou segredos mil,

gemido perdido no Brasil.

No algodão branco, suor escorria,

riqueza de poucos, dor que crescia.


Gemido de negro, nascido escravo,

canto de dor, coração bravo.

Mesmo acorrentado, sonhou lutar,

mesmo humilhado, ousou cantar.


O batuque calado, pulsava escondido,

na palma batida, um som proibido.

A dança banida, renascia em segredo,

o gemido virava coragem e medo.


Séculos depois, o colonizador chegou,

com cruz na mão, contrato e louvor.

Chamou de missão o roubo da terra,

plantou fronteira, espalhou guerra.


O negro na sua aldeia virou estrangeiro,

a língua cortada, o nome inteiro.

Na escola fechada só entrou metade,

no livro escrito faltava verdade.


Gemido de negro, na mina cavada,

diamante arrancado, riqueza roubada.

Na plantação de café, suor sem dono,

enquanto na Europa crescia o trono.


Na cidade de pedra, negro servia,

na porta dos fundos, negro entrava.

E o gemido ecoava, noite e dia,

na cela escura onde negro chorava.


Veio independência, bandeira subiu,

o hino cantou, o povo sorriu.

Mas o ouro já tinha dono distante,

e a dívida nasceu naquele instante.


As armas ficaram, o contrato ficou,

a fome cresceu, a guerra voltou.

O povo esperava justiça e pão,

ganhou miséria, ganhou prisão.


Gemido de negro, favela erguida,

bairro sem água, infância perdida.

O rico viajou, guardou seu dinheiro,

o pobre ficou sem chão, sem celeiro.


As riquezas fugiram pra banco estrangeiro,

a conta secreta virou travesseiro.

Enquanto no hospital faltava remédio,

o gemido crescia, silêncio médio.


No mar Mediterrâneo, corpo a boiar,

jovem africano tentando escapar.

Da seca, da fome, do tédio político,

do sonho quebrado, do drama crítico.


Gemido de negro, viagem sem fim,

esperança pequena, destino ruim.

O barco afundava, o céu chorava,

o gemido no vento ecoava, ecoava.


Mas o gemido não é só dor,

é semente escondida, é grito de amor.

É memória de reinos, rainhas, guerreiros,

é lembrança de povos antigos, primeiros.


É quilombo erguido na selva cerrada,

é lanterna acesa na noite queimada.

É grito de Zumbi, é força de Mandume,

é voz de Lumumba, que nunca se resume.


Gemido de negro, denúncia e fúria,

contra racismo, miséria e injúria.

Contra elites que roubam sem dó,

deixando milhões a viver com pó.


É acusação contra mundo vazio,

que chama progresso e espalha frio.

É verdade que não se apaga em jornal,

é justiça que exige partilha igual.


Mas o gemido é também esperança,

criança que dança, tambor que balança.

É canto que insiste, palavra que nasce,

é chama que arde, coragem que passe.


Que este gemido não seja esquecido,

que ecoe na praça, no povo unido.

Que lembre aos poderosos, na mesa dourada,

que riqueza do povo não pode ser roubada.


Gemido de negro,

gemido do mundo.

Se o negro geme,

geme o fundo.

Geme a história, geme o planeta,

geme a justiça incompleta.


E no dia em que o gemido virar canto,

em que a dor se dissolver no encanto,

o negro dançará, o mundo ouvirá,

e a humanidade, enfim, despertará.

quinta-feira, 14 de agosto de 2025

97 - DISSERAM QUE ERA SEU

 

Disseram que é seu,
como quem arranca fruta do quintal e ainda te acusa de roubo.
Pegaram a batida do nosso tambor,
pintaram de verniz europeu,
puseram-lhe um nome francês ou inglês
e juraram, diante da História,
que nasceu em Paris,
em Londres,
ou na cabeça de um “génio branco”.


Disseram que a lâmina que corta a cana,
a roda que gira a água,
o ferro que dança no fogo,
a matemática que calculava pirâmides
era obra de estrangeiros iluminados,
e não de mãos escuras queimadas de sol,
que sabiam, antes do mundo saber,
que ciência e espiritualidade podiam morar na mesma casa.


Roubaram a música e chamaram-lhe jazz,
mas o sopro que nasceu nas vielas de Nova Orleães
tinha sangue de escravos de Luanda, Benguela, Kongo,
tinha batuque de quilombo,
tinha saudade de mãe perdida no cais.


Pegaram o semba,
cortaram-lhe o pé descalço,
vestiram sapato de verniz,
e chamaram-lhe salsa,
chamaram-lhe samba,
chamaram-lhe rumba.
Mas quando a pergunta é “quem inventou?”
apontam para Havana,
para o Rio,
para Nova Iorque,
escondendo Malanje,
Cuanza Sul,
e as margens do Zaire.


Disseram que a escultura era deles,
porque no museu a madeira perdeu cheiro de floresta,
e a máscara de guerra virou “arte exótica”.
Roubaram as máscaras Fang,
os bronzes do Benim,
os marfins de Cabinda,
e disseram:
"Património mundial".
Mas quando tentamos tocar,
o segurança diz: “Proibido”.


A escrita também roubaram.
Quando olham para os hieróglifos,
dizem “Egipto antigo, civilização mediterrânica”.
Esquecem que o Nilo nasce negro,
e que antes de Roma,
antes da Grécia,
Kemet já escrevia, contava e media o tempo.


Disseram que a lâmpada era de Thomas Edison,
mas não contam de Lewis Latimer,
filho de escravos fugidos,
que desenhou o filamento que deu luz à luz.
Falam de aviões e Wright Brothers,
mas silenciam Alberto Santos-Dumont e muito mais ainda
silenciam William J. Powell,
negro piloto que ousou ensinar outros negros a voar
quando o céu ainda era segregado.


Contam de faróis no mar como se fossem europeus,
mas não falam de Augustus Jackson,
inventor negro que deu sabor ao mundo com gelado,
nem de Garrett Morgan,
que inventou o semáforo para organizar o trânsito das ruas,
porque o caos não podia ser resolvido por um homem negro.


Falamos de medicina e lembram Pasteur, Fleming, Koch,
mas calam Dr. Charles Drew,
que inventou o banco de sangue moderno,
salvou milhões,
e morreu ironicamente porque um hospital branco recusou tratá-lo.


Disseram que filosofia era grega,
mas esqueceram Ptahhotep,
que muito antes de Sócrates já ensinava ética.
Calam Cheikh Anta Diop,
que provou com ciência que África não era berço da ignorância,
mas berço da civilização.


Roubaram o penteado e chamaram-lhe “fashion”,
roubaram a dança e chamaram-lhe “trend”,
roubaram o gingar da fala e chamaram-lhe “slang”,
roubaram o corpo e chamaram-lhe “exótico”,
roubaram até o riso e chamaram-lhe “autenticidade tropical”.


Mas o mais doloroso não foi só o roubo.
Foi escreverem livros,
construírem universidades,
ensinarem gerações inteiras
que nós, pretos, nada tínhamos inventado,
nada tínhamos criado,
que vivíamos nus à espera da luz que vinha de caravela.


O que era nosso, disseram que é deles.
E ainda hoje, quando tentamos contar,
dizem que é “vitimização”,
“complexo pós-colonial”,
“exagero ideológico”.
Mas a História não mente,
mentem os que a escrevem para caber no retrato deles.


Nós sabemos que sem África
o mundo não teria bússola,
não teria café,
não teria ferro moldado como arte,
não teria ritmo no pé,
nem sabor na boca,
nem ciência no bolso.


Foi um negro que descobriu como navegar pelo céu lendo as estrelas.
Foi um negro que fez a ponte de palavras entre tribos e impérios.
Foi um negro que moldou o ouro sem máquina.
Foi um negro que ensinou a plantar em terras secas,
a guardar chuva em pedra,
a construir casa fresca no calor.

E, no entanto, disseram que é deles.


Mas eu escrevo para devolver.
Para que os nomes voltem à boca certa:
Imhotep, pai da medicina;
Nzinga Mbandi, rainha estratega;
Benjamin Banneker, astrónomo e inventor;
George Washington Carver, mestre das plantas e da química;
Solomon Linda, que cantou “Mbube” antes de virar “The Lion Sleeps Tonight”;
Miriam Makeba, que levou a voz de África ao mundo sem pedir licença;
Toussaint Louverture, que fez tremer impérios;
Patrice Lumumba, que pagou com sangue a ousadia de ser livre.


Eles podem riscar os nomes dos livros,
mas não podem riscar dos ossos.
O ADN lembra.
O tambor lembra.
O corpo lembra.


E nós lembramos também.
Porque cada vez que um menino negro inventa,
mesmo que roubem,
o mundo volta a girar com batida africana.
Cada vez que uma mulher negra cozinha,
mesmo que vendam como “culinária internacional”,
o sabor volta para casa.
Cada vez que um jovem negro dança,
mesmo que filmem e viralizem sem crédito,
o passo volta para o chão que o ensinou.

Não é só herança 
Não é só memória

é cobrança do legado.


Podem até dizer outra vez que é deles,
mas o vento leva a mentira,
a água corrói o papel,
e a verdade cresce como capim:
pisam hoje,
amanhã está de pé.


E um dia, quando o museu devolver,
quando a História se reescrever,
quando o mundo aprender a dizer os nomes sem engasgar,
vamos rir.
Não como quem venceu,
mas como quem nunca perdeu,
porque, apesar do roubo,
o que é nosso sempre soube voltar.


Até lá, escrevo.
Canto.
Digo alto:
Disseram que era seu.
Mas eu sei,
tu sabes,
nós sabemos —
foi feito por mãos negras.


E o mundo, cedo ou tarde,
vai ter que confessar.


Sofrido das Chagas 

96 - MEDO DO MEDO



Dizem que é melhor calar,
porque o silêncio também tem dente,
e morde menos que a língua que se atreve a falar.
foi assim que o pai ensinou,
E avó confirmou:
Che menino não fala política.

Aprendemos a andar na ponta dos pés,
como quem foge de vidro partido,
desviando do grito,
engolindo o pranto,
como se a garganta fosse prisão.

Na escola, o chão era a carteira,
a árvore, o tecto,
e a sombra, o quadro-negro da esperança.
Havia guerra de carteiras
onde o primeiro a sentar vencia o campeonato do dia.
Quem chegava tarde
fazia assento na lata vazia de leite Nido,
e sentava o sonho sobre ferro frio.

Merenda escolar? Só no discurso da rádio,
porque no prato só havia vento e poeira.
e a merenda que não chegou
foi o mesmo que o futuro que prometeram 
um anúncio sem entrega.

As estradas, quando não eram poeira,
eram lama,
e quando não eram lama,
eram promessa de asfalto
que nunca saiu do papel.
Chamavam “via de circulação”
à rua que nem bicicleta queria passar,
chamavam “ponto de acesso”
ao lugar onde a água só chegava
depois de pedir visto ao rio.

E nós, com medo do medo,
não dizemos que somos miseráveis,
porque a miséria é palavrão proibido,
e a verdade é crime contra o descanso dos chefes.
Aprendemos que é mais seguro
aplaudir com fome
do que reclamar com barriga vazia.

Mas o medo também tem medo,
e treme quando o silêncio acorda.

Sofrido das Chagas 

95 - A ESPERANÇA EM BUSCA DA VIDA


Minha mãe,
a vida matou em nós a esperança que já não é mística,
pois nos teus olhos, ainda arde o lume antigo
que tenta acender fogueiras no barro molhado da miséria.

Minha mãe,
a esperança somos nós,
os teus filhos partidos para uma fé que alimenta a vida,
mesmo quando a vida parece um cemitério de sonhos.

Hoje somos as crianças nuas
e desprovidas de dignidade,
os garotos sem escola, sem pão, sem mesa posta,
porque o contentor de lixo tornou-se nossa mesa
e a rua nossa sala de jantar.

Somos nós mesmos,
quais contratados a queimar vidas na austeridade,
homens negros, sábios ignorantes
que devem respeitar o homem branco
agora preto em Lexus e temer o rico.

Somos os teus filhos
dos bairros além,
aonde não chega a luz elétrica
nem a água canalizada,
onde homens bêbedos caem abandonados
ao ritmo dum batuque de morte:
morte de fome, de indigência,
morte silenciosa que nem funeral merece.

Mas, minha mãe,
se a vida matou em nós essa mística esperança,
também nos deu a raiva santa
que pode rasgar o silêncio.

Não seremos sempre os mesmos 
nem sempre o lixo será o nosso prato,
nem sempre a escuridão será a nossa lâmpada,
nem sempre o batuque será apenas o compasso da morte.

Minha mãe,
há-de nascer de novo a esperança,
com o rosto de quem já viu tudo
e mesmo assim escolhe ficar de pé.

Porque a esperança, minha mãe,
não é só o que nos prometeram 
é o que vamos tomar com as nossas próprias mãos,
mesmo que para isso
tenhamos de reinventar a vida.

Sofrido das Chagas — adaptado de "Adeus a hora da largada" de A. A. Neto.

terça-feira, 12 de agosto de 2025

94 - NATUREZA E CURA AFRICANA

 

 

No ventre quente da África antiga,

onde o sol beija a terra com língua amiga,

vive a ciência que o livro não ensina,

guardada no cântaro, no cântico, na esquina.

Não vem de jaqueta, não fala em latim,

mas na língua das folhas e raízes sem fim.

É saber da avó, onde cada planta é receita inteira.

 

O maculo, esse verme pequeno, atrevido,

que acorda de noite o sono perdido,

foge da infusão de casca da mulemba,

que, ao ferver, na panela se lembra

do gosto amargo que limpa a barriga,

mandando embora a praga que intriga.

Lá no pilão, mãos firmes socam

sementes secas que os anciãos invocam,

misturando pó com gotas de fé,

pois cura também é acreditar no que é.

 

O gimbaço, febre que arde em segredo,

é combatido com folha de massambala sem medo.

Põe-se no chá, deixa o vapor subir,

que a boca sorve antes de dormir.

A planta aquece, o corpo acalma,

a febre desce, o suor embala,

e a noite vira um campo de descanso,

onde o mal recua, manso, manso.

 

E o mazote (enxaqueca), martelo na mente,

que bate sem pena, rija, insistente,

encontra na raiz de n'gombe-ya-mbuzi

o antídoto simples que o mato produz.

Seca-se ao sol, mói-se no pilão,

ferve-se em barro, bebe-se em mão.

O aroma sobe, a dor se rende,

o sangue flui, o peso se desprende,

e a vista, antes turva, clareia devagar,

como se o dia voltasse a acordar.

 

O tifo, traiçoeiro visitante,

que chega faminto e fica constante,

tem medo do chá de folha de mutete,

que o povo conhece, que o mato repete.

Verde escuro, sabor profundo,

limpa o sangue, varre o mundo

interno de febres e delírios quentes,

deixando o corpo leve, contente.

 

E a malária, sombra antiga e feroz,

que canta o zumbido perto de nós,

não resiste à casca de quissonde amarga,

das folhas verdes esperança do amargo né,

que a avó prepara e larga

num cozido lento, horas no fogo,

até que o líquido, denso e novo,

leve ao doente força e coragem,

pondo o mosquito em outra viagem.

 

Mas há mais dores que a terra conhece,

e mais remédios que o mato oferece.

Para a tosse brava que o peito aperta,

o chá de eucalipto africano desperta

o ar preso nas vias cansadas,

soltando a respiração nas madrugadas.

Para feridas que teimam em fechar,

o sumo de babosa vem ajudar,

refrescando a pele, limpando o corte,

chamando a vida de volta à sorte.

 

O bicho-de-pé que insiste em ficar

na sola do homem que veio da lavra,

sai correndo quando o sal se mistura

com óleo de palma na cura segura.

E a gastrite, fogo no estómago ardente,

encontra na folha de maboque um presente,

que acalma o ácido, adoça a boca,

e deixa a dor fraca, quase louca.

 

O saber africano não é só beber,

é também rezar, soprar, benzer.

É a mão que toca o ombro febril,

o cântico baixo, o conselho subtil.

É saber que a terra fala baixinho,

e que todo remédio tem seu caminho.

 

As folhas se colhem com lua minguante,

pois dizem que assim são mais curantes.

As raízes se tiram ao romper da aurora,

quando o orvalho ainda chora, chora.

E ao cortar o galho, pede-se licença,

pois curar exige mais que ciência:

exige respeito, palavra e cuidado,

pois planta também sente o seu fado.

 

Na sombra do embondeiro, um velho sentado

conta histórias de quando foi curado.

Diz que um dia, com febre e delírio,

foi salvo por chá de mulondo e lírio.

"Meu filho", diz ele , "a planta não mente,

mas é preciso colher no dia presente,

sem pressa, sem raiva, com alma aberta,

pois a cura só entra na porta certa."

 

A raiz de quiabo seco é boa pro ventre,

e o pó de gergelim fortalece a gente.

O óleo de moringa limpa o sangue e o fígado,

e o chá de limão tira o frio tímido.

Cada erva é um verso, cada folha um refrão,

cantado na boca e levado na mão.

 

Não há bula, nem caixa colorida,

mas há histórias que salvam a vida.

Dizem que quem bebe chá de mutamba

tem o coração forte, a alma que samba;

e que a folha de ngongue no banho morno

tira do corpo a indispoção e o cansaço. 

 

Assim, a cura africana é poema e ciência,

é fé e prova, é amor e paciência.

Não despreza o hospital nem a injeção,

mas sabe que a raiz também é solução.

Que o cajueiro dá fruto e dá pele,

que o embondeiro dá sombra e dá mel,

que a quissanje cura com som e memória,

pois música também é parte da história.

 

Na aldeia, ao cair da tarde,

a fumaça sobe da panela que arde.

Ali fervem folhas que o mato ofereceu,

ali cura-se o corpo e o que nele cresceu.

E quando o doente levanta sorrindo,

o povo agradece, o tambor vai batendo,

e a noite, vestida de estrelas abertas,

guarda no céu as curas secretas.

 

Pois África é terra que fala em verde,

que quem ouve e aprende nunca se perde.

É farmácia viva, de chão a céu,

onde Deus escreveu receita sem papel.

E no amanhecer, com o galo a cantar,

o povo sabe: a cura vai continuar.

 

Sofrido das Chagas

93 - CRISE DE CONSCIÊNCIA

 

 

No silêncio da noite, em meio à escuridão,

Surge uma crise de consciência, uma inquietação.

 Questionamentos profundos, dúvidas sem fim,

Uma batalha interna, um turbilhão dentro de mim.

 

As certezas outrora firmes, agora se abalam,

E a alma se debate, em busca de respostas que falam.

 O passado se revela, com seus erros e arrependimentos,

E o presente se torna um espelho de fragmentos.

 

Nessa crise de consciência, mergulho no meu ser,

Exploro minhas fraquezas, meus medos a esconder.

 Reflito sobre minhas escolhas, os caminhos percorridos,

E me questiono sobre o sentido da vida, dos sentidos perdidos.

 

É uma luta interior, entre o certo e o errado,

Entre as máscaras que usei e o verdadeiro fado.

 Busco a verdade no emaranhado de pensamentos,

Na busca incessante por respostas e esclarecimentos.

 

A crise de consciência me faz confrontar,

As contradições que habitam meu modo de pensar.

É um momento de crescimento, de transformação,

De encarar meus demônios e encontrar a redenção.

 

Nessa crise, posso encontrar minha verdade,

Romper com padrões, caminhar com honestidade.

E mesmo que seja doloroso, é um processo de cura,

Para encontrar o equilíbrio e trilhar uma vida mais pura.

 

A crise de consciência nos desafia a evoluir,

 A questionar nossas crenças, a nos abrir.

 É um chamado para a autenticidade, para a mudança,

Para mergulhar fundo na nossa essência e confiança.

 

Assim, enfrento minha crise de consciência com coragem,

Sabendo que é um passo importante nessa viagem.

E, no fim, espero encontrar a paz e a clareza,

 E seguir adiante com sabedoria e nobreza.

 

Sofrido das Chagas

92 - NÃO SOU PERFEITO

 

 

Não sou perfeito, é verdade, reconheço,

Tenho meus defeitos, como qualquer ser.

Mas deixo-me levar por um desejo incessante,

De me tornar alguém melhor, a cada amanhecer.

 

Aceito minhas falhas, sem esconder,

Pois são elas que me mostram o caminho.

Caminho da evolução, do amadurecer,

 Onde meus defeitos se transformam em carinho.

 

Pois vejo em cada falha uma oportunidade,

De aprender, de crescer e me aperfeiçoar.

Não sou prisioneiro dos meus defeitos,

Mas sim, arquiteto do meu próprio remodelar.

 

Reconheço meus erros, sem medo de encarar,

 Pois neles está a chave para a superação.

 Busco a sabedoria que surge do aprendizado,

 E me lanço em busca da minha transformação.

 

Não sou perfeito, nem pretendo ser,

Pois a perfeição é um ideal inalcançável.

Mas tenho a força de vontade para melhorar,

 Para corrigir meus erros, de forma inquebrável.

 

Meus defeitos são como poços a serem consertados,

Profundidades que me mostram o que preciso mudar.

Com humildade e perseverança, sigo adiante,

 Transformando-os em virtudes, a cada acertar.

 

Não sou perfeito, mas sou feito de vontade,

De transformar minhas falhas em oportunidade.

 E assim, me reconstruo, me reinvento,

Buscando a melhor versão de mim, com sinceridade.

 

Então, não me julgue pelas minhas imperfeições,

Mas sim, pelas ações que tomo para evoluir.

 Pois em cada erro, está o potencial de redenção,

 E a possibilidade de um ser humano florescer e sorrir.

 

Não sou perfeito, eu sei muito bem,

Carrego defeitos, como qualquer alguém.

Mas dentro de mim, há uma chama acesa,

A vontade de mudar, de encontrar a beleza.

 

Eu reconheço minhas imperfeições,

E não me escondo delas, não fujo das lições.

Pois em cada falha, vejo uma oportunidade,

De me transformar, de crescer em verdade.

 

Não sou escravo dos meus erros passados,

Mas dono do meu destino, com sonhos ousados.

Eu mergulho fundo no mar do autoconhecimento,

Enfrento meus defeitos, sem medo, sem lamento.

 

E assim, vou consertando os meus defeitos,

 Um a um, como quem conserta pequenos preceitos.

Com paciência, dedicação e determinação,

Eu me esforço para ser a melhor versão.

 

Não sou perfeito, mas sou movido pela vontade,

De me aprimorar, de crescer com humildade.

Cada falha é um degrau na escada da evolução,

Um convite para aprender, para buscar a transformação.

 

Portanto, não me julgue apenas pelos erros que vê,

Mas pelo esforço que faço para me recompor de pé.

 Pois não sou perfeito, mas acredito no poder,

 De consertar meus defeitos e florescer.

 

Sofrido das Chagas


91 - VI O AMOR NO SEU OLHAR

 

 

Vi o amor no seu olhar,

 Uma chama ardente a brilhar.

E nele encontrei um refúgio,

Um abrigo seguro, um mar.

 

Seus olhos, espelhos da alma,

Transbordavam paixão e calma.

 E nesse encontro de olhares,

Sentimentos se entrelaçaram em palma.

 

Vi o amor no seu olhar,

Um convite para me entregar.

E ali, perdi-me sem receios,

Nos abraços que fizeram o tempo parar.

 

Seus olhos, poesias vivas,

Traduziam ternura e melodias.

E nas entrelinhas deles,

Descobri o amor em suas mais doces sinfonias.

 

Vi o amor no seu olhar,

 Uma promessa de eternidade.

E nele encontrei a felicidade,

A paz que preenche a minha verdade.

 

Seus olhos, faróis da minha jornada,

 Guiavam-me na estrada desejada.

E nesse encontro de almas,

Nossa história foi escrita, sem linha traçada.

 

Vi o amor no seu olhar,

E nele mergulhei sem hesitar.

 Encontrei o sentido da vida,

Na certeza de que juntos podemos caminhar.

 

Seus olhos, janelas para o infinito,

Despertaram em mim um amor bendito.

 E na dança dos nossos olhares,

 Descobri um amor puro, sublime e infinito.

 

Sofrido das Chagas

90 - INTRIGA DA OPOSIÇÃO

 

 

Ideias em conflito, pensamentos em disputa.

É um jogo de forças, uma dança sem guia,

Onde a divergência encontra sua voz aguda.

Na intriga da oposição, o mundo se divide,

 

De um lado, a escuridão da contradição,

 Das opiniões que se chocam e se confrontam.

Emerge a dúvida, a incerteza no coração,

Enquanto a intriga alimenta a alma que se reforma.

 

Do outro lado, a luz da compreensão,

Do diálogo que busca pontes entre as margens.

Há a busca pela verdade, a construção,

 Onde a intriga se dissolve e dá lugar às miragens.

 

Mas nesse jogo de opostos, surge a reflexão,

A oportunidade de ouvir e compreender.

Pois a intriga, se bem conduzida, é lição,

Para encontrar a harmonia, o equilíbrio a se obter.

 

Na intriga da oposição, há espaço para a evolução,

Para quebrar barreiras e construir entendimento.

É na divergência que encontramos a união,

Quando aprendemos a respeitar cada argumento.

 

Então, não sejamos vítimas da intriga desmedida,

Mas sim, protagonistas de uma busca sincera.

Pois é na contradição que a verdade é compartilhada,

 E nasce a possibilidade de uma visão mais inteira.

 

Na intriga da oposição, encontramos a oportunidade,

De crescer, de expandir nossos horizontes.

De enxergar além das aparências, com humildade,

E construir um mundo onde a intriga não teme confrontes.

 

Que possamos, então, transformar a intriga em diálogo,

A divergência em aprendizado e compreensão.

 E juntos, superar os desafios desse jogo,

Em busca de um futuro de união e transformação.

 

Sofrido das Chagas

 

89 - AMOR NA CONTRAMÃO

 

 

Em meio às estradas da vida,

O amor surge em contramão.

Desafiando as normas estabelecidas,

Encontrando seu próprio caminho, seu próprio refrão.

 

É um amor que foge do convencional,

Das linhas retas e do óbvio destino.

Cruza a contramão, desafia o sinal,

Em busca de um amor puro e genuíno.

 

Não se importa com os olhares curiosos,

 Com as regras impostas pela sociedade.

 Esse amor é corajoso e audacioso,

Segue seu rumo sem qualquer futilidade.

 

Nasce do encontro de almas destemidas,

Que se reconhecem em meio ao caos.

Unem-se em uma dança proibida,

Seguindo o ritmo de um amor audacioso.

 

É o amor que transcende as barreiras,

Que se desprende das convenções.

Um sentimento que desafia as fronteiras,

Criando sua própria dimensão.

 

Pode ser que nesse amor haja dor,

Pois caminhar na contramão é desafiador.

Mas também há a essência do verdadeiro amor,

Uma conexão intensa que enche o coração de calor.

 

Não importa se o mundo não entende,

Se critica ou tenta desviar o olhar.

 Esse amor segue em frente,

De mãos dadas, sem medo de arriscar.

 

Amor da contramão, rebelde e persistente,

Ensina-nos a viver com autenticidade.

A desbravar novos horizontes, livremente,

 E a amar sem limites, com plenitude e intensidade.

 

Que jamais percamos a coragem,

 De seguir o amor em sua direção contrária.

Pois é nesse caminho de ousadia e coragem,

Que encontramos a verdadeira felicidade, a verdadeira história.

 

Sofrido das Chagas

88 - DEFEITO MEU

 

 

Defeito meu, imperfeição que carrego,

Em meio às minhas virtudes, ele se revela.

 Um traço que me define, sem negá-lo,

Pois faz parte de quem sou, sem cautela.

 

Meu defeito, uma falha em minha essência,

 Um aspecto que me torna humano e real.

Pode ser uma fraqueza, uma insegurança,

Um ponto sensível que me faz vulnerável.

 

Às vezes, é a impaciência que me consome,

A pressa de querer tudo para ontem.

 Perco a paciência, me precipito em ações,

 Esquecendo que a vida é um ritmo, um poema.

 

Outras vezes, é a timidez que me aprisiona,

Um receio de me expor e ser julgado.

Fico enclausurado em meu mundo interno,

Perdendo oportunidades por medo infundado.

 

Talvez seja a teimosia que me domina,

A dificuldade em aceitar outros pontos de vista.

Insisto em minhas convicções, mesmo errando,

 Deixando de aprender com novas conquistas.

 

Mas, mesmo com meus defeitos à vista,

Não deixarei que me definam por completo.

Pois, além das falhas, trago qualidades,

E é na soma delas que construo meu afeto.

 

Meu defeito, parte inseparável de mim,

Uma lembrança constante de minha humanidade.

Aceito-o como um aprendizado contínuo,

Um convite à superação e à autenticidade.

 

Pois, no fim das contas, não somos perfeitos,

E é justamente em nossas falhas que nos revelamos.

Encontramos beleza na nossa imperfeição,

E, com amor e compaixão, nos transformamos.

 

Então, meu defeito, eu te aceito e te abraço,

 Pois és parte integral do meu ser.

Com humildade e coragem, busco melhorar,

E no processo de crescimento, aprendo a viver.

 

Sofrido das Chagas