sexta-feira, 12 de setembro de 2025

101 - MEU REGRESSO - SAUDADES



Saí de Luanda com a mala apertada,

não só de roupas, mas da vida guardada,

Parti de Angola de malas feitas,

mas o coração carregava o peso da terra.

Não eram só roupas, papéis ou lembranças:

eram os ecos de risos, ralhetes,

e a poeira vermelha que insiste em ficar nos pés,

mesmo depois de atravessar o oceano.


Lembro o Curtume, com suas ruas gastas,

paredes rachadas, telhados cansados,

mas cheio de vozes, de sonhos pequenos,

da meninice que corria livre, 

simples e breve, sem pedir licença.

E da Sonefe, degradada, mas viva,

onde a juventude se fez resistência.


Lembro a ilha de Luanda, azul infinita,

o cheiro da brisa, a vida bonita,

o mar que parecia não acabar,

a promessa de frescura nas tardes de calor,

e aos domingos, fiel tradição de família,

o gelado do rabugento, delícia da mão.


Jogávamos bola de saco,

enchida de plásticos, forrada de cordas,

a nossa taça do mundo improvisada.

No campo da Tcul, campeonatos que nos faziam reis,

na Filda, gritos de golos que ecoavam além da pobreza.

Não tínhamos chuteiras, mas tínhamos ginga,

não tínhamos troféus, mas tínhamos aplausos sinceros.

era pouco o que havia, mas tanto de paraíso.


E os namoros inocentes,

as cartas dobradas escondidas no bolso,

as cartas trocadas, promessas quentes,

o rubor no rosto quando a mão tocava outra.

Lembro-me da mamã Kalunga ralhar na porta,

braços na cintura, olhar de trovão,

a ralhar por chegar tarde da noite,

a prometer castigos que quase nunca cumpria.

No fundo, era só o seu jeito de amar

numa casa apertada, mas cheia de mundo.


Ah, doce pobreza de sacrifício duro,

livros pesados, mas coração seguro,

na partilha dos cadernos, no pão dividido,

nas alegrias do coleguismo, tanto vivido.


Estudávamos com sacrifício,

cadernos gastos, canetas que falhavam,

mas havia sempre alguém a emprestar uma folha,

a dividir o lanche,

a rir do mesmo professor.

Na pobreza, a solidariedade era pão diário.

E no coleguismo, descobrimos que crescer

é carregar o outro consigo também.


E agora em Coimbra, entre pedras antigas,

procuro no Mondego as minhas antigas cantigas,

mas é no coração que Angola repousa,

terra de sol, memória que não é ociosa.


O Mondego corre calmo,

mas nos meus ouvidos ainda soam

as ondas da Ilha de Luanda.

A saudade vem nas esquinas,

no frio que corta,

nas vozes que não reconheço na rua.


O meu regresso não é só viagem no chão,

é trazer Luanda cravada na mão,

nas lembranças que a distância não apaga,

na saudade que arde, mas nunca se estraga.


O meu regresso não precisa de avião:

ele acontece cada vez que fecho os olhos,

cada vez que a memória me devolve

um pedaço da minha Angola.

E um dia, sei, voltarei de verdade,

não como quem parte,

mas como quem reencontra

a terra onde o menino correu descalço,

onde a juventude aprendeu a sonhar,

onde a saudade nunca deixou de morar.


Sofrido das Chagas