Levados no porão do navio,
não por escolha, mas por decreto frio,
angolanos cruzavam o mar,
não para conhecer, mas para penar.
Roças de cacau, cana e suor,
um império mascarado de senhor,
com promessas de pão e contrato,
mas na chegada: corrente e aço.
A terra cheirava a riqueza dourada,
mas o povo, apenas sombra dobrada,
mãos que cavavam, pés que sangravam,
olhos que, de longe, Luanda lembravam.
São Tomé não era ilha de prazer,
era prisão sem grades a esconder,
um campo de trabalho, uma mina de dor,
um eco amargo da farsa do colonizador.
E à noite, debaixo da lua calada,
cantavam baixinho a esperança guardada,
versos em kimbundu, rezas em umbundo,
para não perder-se no silêncio profundo.
Mesmo no lodo, crescia a raiz,
mesmo no açoite, sonhava-se o país,
que um dia, rompendo a algema imposta,
veria a liberdade brotar da roça.
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