quinta-feira, 4 de setembro de 2025

99 - GEMIDO DE NEGRO (1)

 


 Gemido de negro,

sussurro da noite rasgada,

eco que não dorme

na memória da cana-de-açúcar,

no chicote que rasgou costas,

no ferro que queimou pulsos,

no navio que cheirava a desespero.


Gemido de negro,

sopro de marés vermelhas,

lágrima salobra que se misturou ao Atlântico,

canto quebrado de mães sem filhos,

filhos vendidos como gado,

corpos medidos em moedas,

vidas trocadas por especiarias,

por pólvora, por sal.


Nos porões apertados,

o ar era cemitério.

Homens viraram sombra,

mulheres viraram silêncio,

crianças viraram mercadoria.

O tambor calou-se,

a dança congelou,

e o corpo que queria ser livre

aprendeu a gemer como oração.


Gemido de negro,

espalhado em plantações de algodão,

onde cada gota de suor

era lucro para um senhor distante.

Na terra que não era sua,

o negro semeava,

colhia,

e morria.


Mas mesmo no cativeiro,

nasceu a teimosia do canto,

o sussurro da resistência,

a lembrança de uma terra perdida,

a saudade de um sol africano.

Na batida escondida da palma,

no olhar erguido em segredo,

o gemido transformava-se em chama,

em lembrança, em promessa.


Séculos depois,

o navio virou bandeira,

a corrente virou fronteira,

o colonialista chegou com livros e armas,

com cruz e contrato.

Chamou de missão o saque,

de civilização o roubo,

de progresso a exploração.


Na África cortada em linhas artificiais,

o negro tornou-se estrangeiro na sua própria aldeia.

A terra dos ancestrais foi fatiada,

as minas cavadas,

o ouro arrancado,

o petróleo sugado,

enquanto a fome permanecia nas barrigas vazias.


O colonialista construiu cidades de pedra,

onde o negro só podia entrar pela porta de serviço.

Escolas de muros altos,

onde o saber era racionado

para que o negro apenas aprendesse

a servir melhor.

A língua materna virou pecado,

o nome ancestral foi apagado,

a história foi reescrita com tinta estrangeira.


E o gemido,

sempre o gemido,

ecoou nos campos,

nas ruas coloniais,

nas prisões de rebeldes,

nos chicotes da PIDE,

nas fogueiras de aldeias queimadas.


Gemido de negro,

depois da independência sonhada,

quando a bandeira subiu

e os hinos ecoaram,

a esperança parecia finalmente vencer.

Mas o ouro já estava longe,

os diamantes já tinham dono,

o café e o cacau já tinham preço marcado.

O colonizador saiu,

mas deixou contratos amarrados,

dívidas invisíveis,

governos frágeis,

armas espalhadas.


O negro livre,

livre apenas no nome,

continua a gemer na favela,

na periferia,

na seca do campo.

Via arranha-céus erguerem-se para poucos

enquanto milhões rastejavam em barracas,

esperando uma partilha que nunca vinha.


As riquezas,

ah, as riquezas!

Guardadas em cofres de elites,

transferidas para bancos estrangeiros,

desviadas em contas secretas.

Enquanto isso,

o povo continua a beber água turva,

a caminhar quilómetros descalço,

a estudar à luz de uma vela.


O gemido ecoava em hospitais sem remédio,

em escolas sem professor,

em estradas de pó,

em jovens sem emprego.

Ecoava também no mar Mediterrâneo,

onde corpos negros flutuavam

tentando fugir do próprio continente,

tentando encontrar um pedaço de dignidade.


Gemido de negro,

não é só lamento,

é também fúria contida.

É memória de reis e rainhas,

de impérios erguidos com sabedoria,

de filosofia que ensinava a harmonia da aldeia.

É lembrança de resistência,

de guerreiros que não se curvaram,

de quilombos que floresceram em segredo,

de vozes que escreveram liberdade.


É denúncia,

acusação contra um mundo

que distribui riqueza como herança de poucos

e miséria como destino de muitos.

É grito contra o racismo que ainda divide,

contra a marginalização que ainda sufoca,

contra a indiferença que ainda mata.


Mas também é semente.

Porque o gemido do negro,

se escutado com atenção,

carrega esperança.

É tambor que quer voltar a bater,

é canto que quer subir ao céu,

é palavra que insiste em existir.


Que este gemido não seja esquecido,

que não seja abafado pela pressa do mundo.

Que ecoe nas universidades,

nos parlamentos,

nas ruas.

Que lembre aos ricos

que a riqueza nasce do suor coletivo

e não da exploração de muitos por poucos.

Que lembre aos poderosos

que a justiça não pode ser privilégio,

tem de ser pão partilhado.


Gemido de negro,

gemido de humanidade.

Se o negro geme,

geme a própria história,

geme o próprio planeta,

geme a própria esperança de justiça.


E no dia em que o gemido

se transformar em canto,

em dança,

em liberdade plena,

talvez a humanidade, enfim,

deixe de ser surda.

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