Gemido de negro,
voz que atravessa a noite,
ferida que não cicatriza,
história que não se apaga.
Gemido de negro,
eco de tambores calados,
lágrima de mães roubadas,
choro de filhos vendidos.
No porão do navio, o gemido era grito,
mar salgado, ar maldito.
Corpos presos, correntes frias,
vidas medidas em mercadorias.
O mar guardou segredos mil,
gemido perdido no Brasil.
No algodão branco, suor escorria,
riqueza de poucos, dor que crescia.
Gemido de negro, nascido escravo,
canto de dor, coração bravo.
Mesmo acorrentado, sonhou lutar,
mesmo humilhado, ousou cantar.
O batuque calado, pulsava escondido,
na palma batida, um som proibido.
A dança banida, renascia em segredo,
o gemido virava coragem e medo.
Séculos depois, o colonizador chegou,
com cruz na mão, contrato e louvor.
Chamou de missão o roubo da terra,
plantou fronteira, espalhou guerra.
O negro na sua aldeia virou estrangeiro,
a língua cortada, o nome inteiro.
Na escola fechada só entrou metade,
no livro escrito faltava verdade.
Gemido de negro, na mina cavada,
diamante arrancado, riqueza roubada.
Na plantação de café, suor sem dono,
enquanto na Europa crescia o trono.
Na cidade de pedra, negro servia,
na porta dos fundos, negro entrava.
E o gemido ecoava, noite e dia,
na cela escura onde negro chorava.
Veio independência, bandeira subiu,
o hino cantou, o povo sorriu.
Mas o ouro já tinha dono distante,
e a dívida nasceu naquele instante.
As armas ficaram, o contrato ficou,
a fome cresceu, a guerra voltou.
O povo esperava justiça e pão,
ganhou miséria, ganhou prisão.
Gemido de negro, favela erguida,
bairro sem água, infância perdida.
O rico viajou, guardou seu dinheiro,
o pobre ficou sem chão, sem celeiro.
As riquezas fugiram pra banco estrangeiro,
a conta secreta virou travesseiro.
Enquanto no hospital faltava remédio,
o gemido crescia, silêncio médio.
No mar Mediterrâneo, corpo a boiar,
jovem africano tentando escapar.
Da seca, da fome, do tédio político,
do sonho quebrado, do drama crítico.
Gemido de negro, viagem sem fim,
esperança pequena, destino ruim.
O barco afundava, o céu chorava,
o gemido no vento ecoava, ecoava.
Mas o gemido não é só dor,
é semente escondida, é grito de amor.
É memória de reinos, rainhas, guerreiros,
é lembrança de povos antigos, primeiros.
É quilombo erguido na selva cerrada,
é lanterna acesa na noite queimada.
É grito de Zumbi, é força de Mandume,
é voz de Lumumba, que nunca se resume.
Gemido de negro, denúncia e fúria,
contra racismo, miséria e injúria.
Contra elites que roubam sem dó,
deixando milhões a viver com pó.
É acusação contra mundo vazio,
que chama progresso e espalha frio.
É verdade que não se apaga em jornal,
é justiça que exige partilha igual.
Mas o gemido é também esperança,
criança que dança, tambor que balança.
É canto que insiste, palavra que nasce,
é chama que arde, coragem que passe.
Que este gemido não seja esquecido,
que ecoe na praça, no povo unido.
Que lembre aos poderosos, na mesa dourada,
que riqueza do povo não pode ser roubada.
Gemido de negro,
gemido do mundo.
Se o negro geme,
geme o fundo.
Geme a história, geme o planeta,
geme a justiça incompleta.
E no dia em que o gemido virar canto,
em que a dor se dissolver no encanto,
o negro dançará, o mundo ouvirá,
e a humanidade, enfim, despertará.
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